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21/06/2020

A arca (contos de quarentena)


A BARCA
Gloria Horta
Abro os olhos e estou na imensa sala de uma casa de madeira, deitada, com muitas pessoas ao meu redor, um pouco distantes. Uma mulher, sorrindo, me diz:
- Bom dia, Maria. Que seja alegre o seu despertar.
Ainda sonolenta, tento sentar-me lentamente. A mulher me ajuda, e diz:
- Fique tranquila, você está bem e nós estamos aqui para ajudar.
Limpo a garganta e olho em volta. Há dezenas de pessoas olhando para mim, algumas de cabeça branca, outros jovens, e muitas crianças, homens e mulheres. Todos vestidos de branco.
- Onde estou?
- Você está segura, diz a mulher, bem de saúde. Pode nos dizer quais as suas últimas Lembranças? Sem pressa.
- Lembro que há uma pandemia. Fugi de casa porque não suportava mais viver trancafiada no apartamento com meu padrasto. Ele....
Sinto vontade de chorar e vergonha de contar, mas digo, baixinho:
- Desde a morte de minha mãe, vivo com este homem. Ele bebe muito, e me olha de um modo estranho. Parece doente, mas não quer procurar um hospital. Tenho medo de ser atacada ou contaminada.
Tomo fôlego, e continuo, com a voz fraca:
- Sentia medo, a qualquer momento podia tentar abusar de mim, ou ser violento. Via em seu olhar. Ouvia, mesmo durante a noite, sua tosse intermitente. Não tenho família nem a quem recorrer. Acho. Com a pandemia, as pessoas estavam receosas de receber outras em casa. Tentei pedir ajuda a conhecidos, mas todos foram reticentes. Acho. Não me lembro a quem pedi ajuda, nem quem eram meus amigos.
Tento recordar, faço um esforço:
- Fiz minha mala e abri a porta para fugir, estava febril e tossia, senti uma zoeira na cabeça, a vista ficou turva, e acho que desmaiei. E acordei aqui. Onde estou? Quem são vocês?
- Somos pessoas dispostas a ajudá-la. Meu nome é Vicentina.
Outra mulher se aproxima, e Vicentina diz:
- Essa e Maria Augusta, ela cuidará de você.
Maria Augusta sorri, sorrio amarelo de volta.
Olho para a janela atrás das pessoas, e estamos cercadas de mata verde, o sol está nascendo, ouço barulho de pássaros e água correndo. Não me lembro de ter estado neste lugar antes. Pergunto:
- Há quanto tempo?
- Muito, ela responde, apertando minha mão.
Estou impressionantemente calma, ajeito-me e percebo que meus cabelos estão enormes, mas limpos e sedosos. Também estou vestida de branco, como todos. Minha pele está bem cuidada, mas muito branca, não tenho mais nenhuma marca de biquíni. Sou a mesma pessoa, mas pareço outra. Tão leve e angelical que penso que talvez não queira sair nunca mais daqui. Não sinto a dor nas costas que me acompanhou durante anos. Nem a aflição no peito, que recordo, mas como um fato longínquo no tempo.
Respiro fundo e insisto:
- Como vim parar aqui?
Maria Augusta olha-me nos olhos e explica, lentamente, como se estivesse dando o tempo necessário para que eu apreendesse tantas informações:
- Selecionamos muitas pessoas para serem isoladas e permanecerem saudáveis e vivas após a pandemia. Você foi uma delas. Todos aqui não tinham parentes e estavam de coração aberto para viver uma vida diferente. Como você pode ver, escolhemos pessoas idosas, para garantirem a transmissão dos saberes, jovens em idade de reprodução, e crianças abandonadas. Foi preciso ter certeza de que não dariam pela falta de vocês.
Sinceramente, não acredito em nada disso. E nem me importo. Sem pandemia e sem padrasto, no meio dessa gente calma, tanto faz como cheguei aqui.
Maria Augusta para por um instante, e as pessoas vão se sentando à minha volta, sorrindo para mim, nitidamente com o intuito de me acalmar. No entanto, estou calma.
Tento sorrir de volta, estou com a boca seca, peço água e bebo um copo grande, para tomar tempo. Maria Augusta pega o copo de volta e me oferece uma fruta, que não reconheço. Faz um sinal com a cabeça para os presentes e ouço, em várias línguas, compreendendo todas:
- Fique bem.
- Não se preocupe.
- Estamos salvos.
- Também despertamos confusos como você.
Olho para Vicentina, e murmuro, gaguejando:
- Estou entendendo tudo.
Ela sorri e me diz:
- Enquanto você dormia, aprendeu muitas coisas novas, idiomas, maneiras de plantar e colher, receitas saborosas, marcenaria, Filosofia, Economia, e por aí vai.
Estou paralisada, realmente busco em minha memória, e encontro muitos saberes que, antes de desmaiar, não conhecia. Fico pasma. Perplexa, talvez seja a palavra exata. Toco meu corpo, sinto-me viva e sou capaz de ver o sol está mais alto lá fora. Ninguém está de máscara no rosto. Eu já estava me acostumando a ver apenas os olhos das pessoas nas ruas. Durante muito tempo, era como se usássemos burcas. Eu lembro muito bem. De todas as cores e muitos modelos, customizadas, discretas, bordadas, fluorescentes, teatrais, transbordando criatividade. E originais, já que cada pessoa podia costurar ou encomendar a sua própria. Mesmo com tanta tristeza, as máscaras davam às criaturas um ar divertido.
Levanto-me lentamente e caminho até a janela, para certificar-me de que ainda tenho movimentos. Lá fora, vejo uma mata verde espessa, pássaros e borboletas de variados tamanhos. Inumeráveis colinas e, mesmo a distância, enxergo casarões nos cumes, muitos, a perder de vista, bem distantes uns dos outros. Pássaros, lagos com cisnes diferentes dos que conheço, ou seriam patos? Outros estranhos animais voadores. Água corrente por todos os lados, em pequenos riachos e lagoas.
Lembro: na pandemia, os animais silvestres e selvagens passaram a andar pelas ruas, enquanto nós permanecíamos em casa, enjaulados, com medo do vírus. Como um zoológico às avessas. Tínhamos medo uns dos outros, e um pouco de fome, a comida era escassa. Muitos moradores de rua foram instalados em hotéis de luxo, velhos abandonados em asilos foram recolhidos e adotados por famílias bondosas, ricos isolaram-se em iates, casas de campo ou navios. A memória é nítida, como é nítido o medo que eu sentia do que poderia acontecer comigo, cada vez mais isolada do mundo e refém daquele homem bruto e doente que eu detestava.
Mas na rua também víamos muitas pessoas mal vestidas e desleixadas, não sei se deprimidas, ou cansadas de lavar e passar roupa. Como estará minha aparência? Pergunto:
- Tem um espelho aqui?
Vicentina faz um sinal com a cabeça, e Maria Augusta me conduz pela mão e, todos juntos, vamos para a sala ao lado. Um salão de dança, como muitos que já vi, com espelhos e barras. Olho-me por inteira, e pareço bem. Estou um pouco mais gorda, mas minha musculatura não dá sinais de ter ficado tanto tempo parada. Apenas meus cabelos estão longos demais, e a pele muito clara, isso me torna uma pessoa que sou eu, mas também não sou mais. Indago, apreensiva:
- Quantos anos tenho?
- Os mesmos que tinha quando chegou. O tempo não passa aqui do mesmo jeito que no seu mundo.
Começo a rir, de nervoso e deboche:
- Aqui não é meu mundo?
- Não, responde uma criança com olhinhos puxados de índia, numa língua diferente que, misteriosamente, entendo. Alguns adultos sorriem e fazem sinais para que a criança se cale.
É claro que estamos no mesmo mundo. Faço um ar de zombaria e digo:
- Sei. Vou fingir que acredito.
- Vamos conversar, diz Maria Augusta, enquanto todos sentam-se em roda, sempre sorrindo para mim, com a nítida intenção de manter-me calma.
Sinto um ligeiro tremor e uma vontade imensa de chorar. Lembro que meu padrasto chegou a tentar me agarrar à força, mas estava muito bêbado e fraco e, apesar dele ser muito mais alto e forte que eu, consegui empurrá-lo e trancar-me em meu quarto. Sim, foi aí que decidi ir para as ruas, preferia o risco do vírus ao risco do estupro. Digo:
- Estou me lembrando de uma coisa muito ruim. Meu padrasto, ele...
Maria Augusta me interrompe:
- Calma, apagamos as lembranças desagradáveis, mas sempre deixamos preservado o momento em que vieram para nós. Você esquecerá. Seu padrasto faleceu há muitos anos, você não está mais em perigo.
Todos ficam em silêncio, como se já conhecessem o procedimento. Então eu me assusto:
- Mas eu tenho minha memória intacta!- digo,convicta.
- Não, Maria, você esteve sob efeito de uma longa hipnose. Todos aqui passaram por isso. As experiências traumáticas e desagradáveis foram apagadas. As recordações inúteis desapareceram de nossas mentes, fatos que nos fizeram sofrer sem agregar nenhum ensinamento, pessoas que nos fizeram mal, mas que não fazem a menor falta na nossa história. Indago:
- Uma lavagem cerebral?
E acrescento que não me sinto sem memória. Como podem selecionar o que é bom e o que não é nas minhas lembranças?
Antes que me respondam com respostas evasivas, continuo:
- Ainda tenho o apartamento? O lugar onde eu morava? Vou voltar para lá?
Maria Augusta diz, sempre com voz mansa.
- Não, Maria, não existem mais apartamentos, agora há casas com jardins, e você terá a sua. Sem prédios superlotados, as epidemias desapareceram completamente. Não foi suficiente construir hospitais e abrigos, foi necessário, em todo o seu mundo, desamontoar as pessoas, e colocá-las de volta de onde nunca deveriam ter saído, em casas arejadas em pequenos municípios. É isso, minha querida, a cidade grande foi um plano que não deu certo. Houve uma descentralização, me entende?
Não, não entendo. Por que se refere ao “meu mundo”, como se houvesse outro? Não vou insistir nesse assunto, sei que estou viva, percebo pelo ar que respiro, pela temperatura amena. Dou um longo suspiro, muito longo mesmo.
- Vamos fazer assim, diz Maria Augusta, vamos comer, estamos todos com fome, e depois eu explico tudo que você precisa saber. Só pense uma coisa, você está bem e entre amigos. Embora não conheça essas pessoas, elas te conhecem muito, cuidaram de você durante anos, acredite em mim. Ou você não estaria em plena forma após esse sono tão longo.
Concordo com a cabeça e, aos poucos, vamos em direção a um outro lugar onde há uma mesa grande no centro, e um farto café da manhã. O silêncio termina, e as pessoas começam a conversar entre si, as crianças a brincar e correr, os idosos mais devagar, os jovens rindo e falando quase todos ao mesmo tempo, cada um num idioma diferente. Todos, inclusive eu, entendem-se perfeitamente. De todos os sustos que estou levando nesse estranho despertar, este é o mais espantoso: entendo todos as línguas. Há frutas que desconheço, mas não comento, limito-me a experimentá-las, pensando que talvez tenham tirado, sem querer, as frutas da minha memória. Como saber o que esqueci, se não me lembro? Difícil acreditar nisso.
Antes de sentarmos à mesa, um homem alto, bonito e barbado, diz para todos:
- Podem arrumar-se.
Colocam-me sentada à cabeceira da mesa, todos desaparecem por alguns instantes, e voltam vestindo roupas distintas. Trajes tribais, saias longas, batas, shortinhos, camisetas, umas formais, outras bem informais para meu gosto. Tenho a certeza de que estou com pessoas de todos os países. Voltam diferentes, personalizados, e eu rio com os penteados, os brincos, os tecidos, de diferentes épocas e lugares do meu mundo. Sorrio com esse pensamento. É meu mundo, sim, o que via nas ruas e nas revistas e filmes, antes da pandemia, antes dos mascarados.
Esforço-me para ficar calada, apesar das mil perguntas que giram na minha cabeça. Os assuntos sobre os quais conversam são os mais variados: fofocas, receitas, comentários sobre colheitas, plantas medicinais, e até sobre o tempo. Será que amanhã vai chover? Gostou da cor do meu cabelo? Você não sabe da maior: estão programando mais um casamento coletivo. E adivinha! Levy se casará com Nini. Antenor com Cléa. Eu já sabia, diz alguém, estava na cara que ali rolava alguma coisa. Estavam sempre juntos.
- Eu vi eles se beijando, diz uma criança pequena, querendo participar da conversa dos adultos.
Novamente alguns adultos encaram a criança marota, para tentar silenciá-la.
Sejam quem forem essas pessoas, são conversadoras e animadas. Mesmo perplexa, não consigo deixar de rir dessa cena inesquecível. Atônita, mas sentindo-me em casa. Na verdade, acho, estou em casa, já que tudo indica que vivo neste lugar há alguns anos. Ninguém parece querer o meu mal, estou segura. Confusa, mas segura. Não tenho medo de nada. Meu principal medo desapareceu: a pandemia. Só isso importa agora. Posso abraçar as pessoas e beijar, como antigamente. Poderei sair às ruas normalmente, e normalmente fazer compras no supermercado, trabalhar, cuidar da minha casa, seja lá onde for. Tenho plena convicção de que há uma vida normal à minha espera.
Sem me dar conta, já estou conversando com um homem da minha idade, de cabelos longos e barbicha, elogiando a beleza desse amanhecer avermelhado, com lua quase transparente desaparecendo enquanto o sol esquenta.
Vejo uma mulher bonita, que me lembra muito minha mãe quando jovem, e desabo a chorar. Ela me olha de volta, com carinho. Sim, tenho minhas lembranças. Todos ficam em silêncio, respeitando meu emudecimento. Tento me justificar, e digo para todos:
- Minha mãe, ela faleceu na pandemia.
- Conservamos memórias de pai e mãe, diz uma jovem de tranças enormes e ruivas.
E, tentando animar-me:
- Quer tomar um banho e trocar de roupa?
Aceito, e saio com ela, ainda fungando. Ela se apresenta. Tem a minha idade e viveu a pandemia nos Estados Unidos, em Michigan. Guarda lembranças ruins, mas evita acessá-las.
- Meu nome é Mary Catherine Smith, diz, dando-me um abraço. Choro de novo, há tanto tempo não sentia o corpo de outra pessoa tão perto. Nada do que está me acontecendo é mais espantoso que minhas últimas lembranças de um Rio de Janeiro com ruas vazias de pessoas, animais passeando, esquilos, saguis, patos, gansos, garças, cobras, javalis, cotias, pacas, tatus, porcos, cavalos,  e até leões foram vistos. Alguns policiais mascarados, carros com pneus vazios, parques em total abandono, sacos de lixo acumulados em algumas esquinas, e muita gente perambulando sem destino, falando sozinhas ou chorando feito loucas, e sendo recolhidas por carros pretos de chapa vermelha, levadas para abrigos, hospitais ou sanatórios, todos superlotados.
- Acho que fugi de casa pensando em morrer, eu disse.
- Isso já ficou para trás, sussurra Mary, num inglês perfeito que compreendo e domino perfeitamente.
Ela me mostra um imenso quarto de vestir, com roupas de todo tipo, parecem usadas, mas estão novas. Escolho um vestido de malha preto com bolinhas brancas, parecido com um que adorava. Experimento sapatos e acabo optando por sandálias de dedo.
Pergunto para Mary, acho que com voz de criança:
- Eu desmaiei e vocês me pegaram, foi?
Ela cai na gargalhada, talvez pelo meu tom infantil.
- Maria, não se preocupe tanto com detalhes. São muitas as informações que você ainda precisa e vai ter, mas aos poucos, cada coisa na sua hora. Não sou eu quem vai te explicar como tudo acontece aqui. A responsável por você é a Maria Augusta, vá conversando com ela.
Mary olha em volta, para ter certeza de que estamos sozinhas, e sussurra, em tom confidencial:
- O sistema de esvaziamento seletivo de memórias não é cem por cento eficaz. Acontecem muitos erros.
Fala mais baixo ainda:
- Estão sempre tentando aperfeiçoar. Sobram muitos resquícios, e provavelmente é o único procedimento que não funciona exatamente como gostariam. Tentam deixar intactas as lembranças do momento em que saímos do nosso mundo, e apagar tudo que foi nocivo e não serve para nada.
Enquanto fala, Mary me guia para uma sala de aula ampla, onde uma outra mulher de idade parece dar aula. Sento-me aos outros “alunos”, que são muitos, e ouço:
- Pra quem não me conhece, especialmente vocês do Brasil, sou Emília da Glória, do Rio de Janeiro, e por esse motivo fui escolhida para a palestra de hoje. Tudo vai parecer uma loucura, mas aos poucos será a coisa mais natural do mundo. Todos aqui passaram por esse um grande espanto.
E explica. O mundo inteiro estava se consumindo com muitos desastres, ambientais e de saúde, a humanidade estava ameaçada. Drones imperceptíveis sobrevoaram a Terra em busca de pessoas solitárias, dispostas a viver uma experiência nova, pessoas que, como eu, como vocês, encontravam-se em estado de total abandono. E foram escolhidas algumas centenas... centenas de milhares. Ou milhões. Para serem cuidadas e darem continuidade à vida. Houve muitas mudanças em todos os países. Todos. As principais foram o desmonte das grandes cidades e das aglomerações. Fronteiras se quebraram e foi criada uma nova forma de vida, possível. Vocês, escolhidos, foram trazidos por nossos mestres e, enquanto dormiam um sono profundo, receberam aulas e instruções em estado de inconsciência, com o intuito de se prepararem para regressar à vida.
Finjo que acredito. Emília da Glória continua:
- Priorizamos idosos com sabedoria, teoria ou prática, povos das florestas e de tribos com conhecimento de plantas, médicos, professores e técnicos nas mais diversas áreas, jovens sensíveis e com capacidade de reprodução, e crianças sem família, abandonadas em abrigos, e também alguns moradores de ruas e periferias, enfim, pessoas cujo desaparecimento não seria notado.
Aceno, concordando, mas não estou convencida. Emília da Glória percebe minha expressão de desconfiança, acho, mas segue em frente:
- Há, diariamente, viagens de regresso e chegada, de vários lugares diferentes, temos tecnologia para isso. Muitos já voltaram para a cidade ou país que escolheram, saíram daqui em famílias recém-criadas. Vocês escolhem onde querem viver daqui para a frente. São livres. Escolhem o país e a família aos quais desejam pertencer. Alguns preferem ficar, temos sempre muito trabalho. É necessário cuidar dos que ainda estão em estado de sono profundo e aprendizado, e precisam estar limpos, alimentados, massageados, enfim, com todos os cuidados que requer uma pessoa acamada. Mais cedo ou mais tarde, todos voltam à vida. Olha para mim, e diz:
- Maria, logo chegará a sua vez. Só depende de você.
A aula é pública, mas Emília da Glória olha para mim. Tudo faz sentido, menos estar em outro mundo. Talvez seja uma maneira metafórica de nos fazer entender que a vida será outra, muito diferente após a pandemia. Que teremos que abandonar todas as nossas crenças e apegos, e formarmos uma nova consciência. É com esse pensamento que aceito as explicações de Emília da Glória, e sou invadida por uma ponta de felicidade. A aula é interrompida para o almoço, quando de novo compartilhamos uma mesa farta, com alimentos saborosos e desconhecidos, que saíram da minha memória, ou não existiam no Brasil.
De tarde, mais palestras, sobre temas que eu conhecia de nome: Ecologia, solidariedade, subsistência, manejo da terra, dicas de corte e costura, um apanhado geral de tudo que precisamos saber para sobreviver, é o que dizem.
Anoitece quando somos dispensados para o banho, trabalho e atividades lúdicas.
- Disposta a trabalhar comigo? – pergunta Mary.
- Em quê?
- Cuidaremos dos adormecidos, topa?
Concordo e ela me leva com ela para uma gigantesca sala branca com berços de prata, fechados como casulos, com alguns sinais iluminados no que parece ser a tampa. Uma névoa branca permeia o ambiente. Amplas janelas com cortinas esvoaçantes igualmente brancas. Um silêncio de surdos profundos. Mary aproxima-se do primeiro, clica num ícone e, lentamente, a tampa se abre.
Estou arrepiada. Vejo uma criança negra, cerca de treze anos, que ainda dorme. Pareceria morta, se não fosse a expressão de tranquilidade. Escovamos seus cabelos, lavamos seu corpo pequeno, exercitamos suas pernas, braços, pés, cabeça. Seguimos um protocolo que Mary me ensina, cautelosa e meticulosamente. Choro de novo, disfarçadamente. Quantas crianças terão sido levadas pela pandemia? – penso.
Na parte de dentro do casulo, há uma espécie de capacete branco, feito de um material que desconheço ou não reconheço. Mary me ensina como encostá-lo na testa da menina durante alguns minutos em que, silenciosamente, observo. Mary observa um relógio com alarme projetado na parede, e sussurra:
- Assim esvaziamos a memória. Dois minutos por dia é suficiente. Um segundo a mais ou a menos e corremos o risco de apagar algo importante, ou deixar o que não mais importa.
Substitui o capacete branco por um azul, e murmura:
- Agora estamos injetando conhecimento. Não me pergunte como, aprendi assim, repito, e vem dando certo. Uma espécie de tradição, a gente aprende e repassa sem questionar.
Assim vamos, de leito em leito, até chegarmos à última criança. Após observar atentamente este procedimento, eu seria capaz de repeti-lo sem erro, acho.
Terminada a tarefa, saímos e finalmente vamos para o ar livre. Já é noite. Fico mais feliz ainda ao sentir a brisa, nem quente nem fria, amena como a temperatura.
Mary levanta-se e eu a sigo. Fazemos uma longa caminhada até chegarmos à cachoeira pequena, e meus olhos enchem-se de lágrimas novamente. Na pandemia, eu me questionava, angustiada, se ainda veria alguma de perto.
E quando olho para o céu, eu não reconheço posição das estrelas. Não vejo as Três Marias, nem Vênus. Não fico impressionada nem um pouco. Sei perfeitamente que o céu é diferente em diferentes continentes. Mas ainda é o meu mundo.
Sentamos numa grande pedra, olhando para a água cristalina. Mary conta-me sua vida, uma vida bastante banal, mas com histórias de abandono e solidão, muito parecidas com a minha. Talvez pior. Ela morava num lugar que chama de orfanato, mas não sei o que é. Onde ficam crianças abandonadas ou órfãs, ela me explica.
- Ou crianças de rua, como havia em seu país.
Tenho a impressão de ver a lua nascer de novo, mas não comento, estou com fome, cansada e confusa pelo dia tão intenso. Voltamos, mas não para a grande casa. Mary me guia para um lugar descampado, imenso, e sorri para mim como se estivesse prestes a me revelar uma grande surpresa.
- Chegou a hora, fala, sorrindo com um ar de marota. Melhor ver com seus próprios olhos que receber explicações em salas de aula. Ri, satisfeita, parece orgulhosa de ser a responsável por mim nesse momento.
De longe, ouvimos vozes cantando, instrumentos tocando, uma festa, com certeza.
Pessoas vêm caminhando por diversas trilhas, em direção ao gramado. Vão, em silêncio, formando um círculo. Encontro e reconheço as faces já familiares do meu grupo.
Parece uma despedida. Sete brasileiros são abraçados e beijados por todos, recebem salvas de palmas e despedem-se, alegres, confiantes, e com lágrimas nos olhos, provável saudade antecipada dos amigos dali.
Então surge no céu uma nave gigante e, delicada como um beija-flor, pousa na grama e abre suas portas, silenciosamente. Quatro moças, dois rapazes, três idosos e cinco crianças afastam-se de nós e formam um grupo que se dirige à nave. Logo surgem mais grupos, vindos de outras colinas, de todos cantos, e se juntam a outros que vão partir. É o que parece.
Tremo dos pés à cabeça, como estivesse vendo um Deus na minha frente, e observo esse caminhar sereno em direção à imensa embarcação. De dentro do pássaro gigante, que parece também um avião redondo, saem homens e mulheres bem idosos e se colocam enfileirados, para receber os que para lá caminham.
Uma voz, que todas as casas de todas as montanhas conseguem escutar, diz:
- Hoje é dia dos brasileiros. Ou melhor, dos que escolheram o Brasil para retornar. Seus habitantes chegam e retornam ao final deste ciclo de vinte e duas luas duplas. Bem-vindos os que chegaram e boa viagem aos que vão.
Há um silêncio ensurdecedor, Mary não move um músculo. Estou arrepiada e trêmula, sou cética, mas meus olhos não me enganam. A voz continua, no mesmo tom manso:
- Orbis Esopianeta Pythonissam 2020, de Lyrica 20MG, tem o prazer e o privilégio de hospedá-los. Boa sorte a todos.
Disparo perguntas como rajadas e Mary ri, somente ri, não responde. Paro, reflito e pergunto:
- Mary, os que saíram daqui escolheram, por livre e espontânea vontade, o Brasil para voltar?
- Simmmm!!! Responde, alegre. É isso.
Arregalo os olhos, assustada, e grito, meio esganiçada, quebrando o silêncio:
- E o Bolsonaro??????????
Todos se entreolham intrigados, há um burburinho, sobrancelhas franzidas. Perguntam, depois de vasculharem as memórias:
- Bolsonaro é quem?



A bisa na pandemia


Hoje, dia 31 de outubro de 2050 bisa faz cem anos.
Preparamos uma grande festa para toda a família, mas ela amanheceu caduca. Acordou antes das cinco e fez uma super faxina no apartamento, depois arrumou armários, rasgou fotografias antigas, pediu compras por telefone, pendurou uma garrafa de álcool em gel na porta de entrada, cobriu todos os móveis com lençóis brancos, ligou para o porteiro e ordenou que ninguém entrasse no apartamento, exceto moradores. Liguei para minha mãe, que ligou para o médico que disse para que não interferíssemos. É normal pessoas em idade avançada retrocederem no tempo e guardarem apenas memórias antigas, ele disse. Mas, e a festa?
Quer dar festa? perguntou minha bisa, pode dar, mas cada convidado tem que tirar toda a roupa no quartinho dos fundos, colocar tudo num saco fechado, tomar um bom banho, passar álcool no corpo e vestir uma roupa limpa. Ninguém se aproxima de ninguém, a distância mínima é de um metro. Cada um traz seu copo e talheres, descartáveis. Se seguirmos as orientações da OMS, aceito a festa, mas com pouca gente. Aglomeração não pode, disse ela. E arrematou, autoritária e doce, como sempre: ninguém sobe de elevador, é um ninho de bactérias.
Tentamos explicar à bisa que a pandemia tinha acontecido nos anos vinte e que agora não precisamos mais ter todos esses cuidados, basta a máscara. Mas minha bisa não arredou o pé: O que vocês querem? Uma pandemia familiar? Eu sou grupo de risco, se entrar alguém aqui, eu me tranco no meu quarto.
Desmarcamos. Bisa continuou sua nova velha rotina: lavou as compras: potes de requeijão, temperos, material de limpeza, garrafas de mate, frutas, nada entrava mais no apartamento sem passar pela higienização metódica dela. E tinha que higienizar tudo de máscara e luvas pra não respirar o vírus. Parecia mais jovem, do tanto que trabalhava. Pediu por telefone provisões para muitas semanas. Lavou tudo, até as embalagens, e lavava as mãos de hora em hora. A qualquer momento pode acontecer uma contaminação ou uma chamada de vídeo, dizia, enquanto passava batom, sem acertar direito o tamanho da boca agora pequena.
Às dezoito horas em ponto correu lentamente sua corrida velhinha até a janela e gritou com sua voz fraquinha, mas convicta:
- Fooooora, Bolsonaaaaaro!
E bateu panelas, fazendo um barulho tão alto que nem parecia que vinha de braços e mãos tão frágeis.  Bisa ficava na janela fotografando tudo o que considerava “uma aglomeração”. Vou denunciar, dizia, com voz firme. Estão colocando em risco a vida das pessoas.
Meus irmãos e meus tios tentaram visitá-la, mas ela agradecia a visita pelo olho mágico  e, se trouxessem presentes, comidinhas ou até mesmo correspondência da portaria, ela pedia que deixassem do lado de fora da porta, e só abria depois que eles iam embora, de luvas, e com álcool em gel em punho, passando até nas contas e boletos. O pior é que me obrigava a fazer o mesmo, eu não podia mais receber meus amigos em casa, e quando eu saía, na volta eu era obrigada a me desinfetar toda, ou ela tinha uma crise de pânico. E quando eu saía, ela recomendava: cuidado com os animais selvagens. Estava doida. Lavava minhas máscaras e deixava de molho por horas na água sanitária, fiscalizava toalhas, panelas, armários, enquanto eu sofria por ver minha bisa querida, tão lúcida há tão pouco tempo atrás, perder o juízo.
A situação estava ficando fora do controle. Minha avó me explicou que a pandemia foi um choque na vida de todos os humanos do planeta, e não só dos brasileiros. Que até então ninguém usava máscaras. Que antes era comum pessoas sem máscaras andarem juntas em elevadores, lojas superlotadas, blocos de carnaval, tudo era aglomeração sem perigo. Estranho ouvir isso, eu que praticamente nasci de máscara, que vi poucas bocas na rua, que desde pequena guardo na lembrança os olhos das pessoas. A máscara, para mim, é como o sutiã, a gente usa e pronto. Não passa gripe, não respira o ar poluído das grandes cidades, e ainda combina com a roupa.
Minha avó foi mais além e me contou que quando era jovem, o mesmo acontecia com o cigarro, que pessoas fumavam nos elevadores, dentro dos aviões, nas salas de aula, nos bares fechados, nos carros sem ar condicionado, nos ambientes de trabalho e, pasmem,  era considerado chique, havia anúncios de cigarro na televisão, e os maços eram vendidos abertamente em qualquer jornaleiro, bar, ou restaurantes. Achei que estava exagerando, mas fingi que acreditava pois já estava cansada de viver no passado. Chorei muito, submetida a tanta paranoia.
E não era só isso. Bisa tinha pesadelos que estava numa piscina sem  máscara, tentava sair e não conseguia. Ou que queria sair e não achava as máscaras, ou que encontrava um bando de pessoas sujas dentro de sua sala. E despertava no meio da noite chorando, apavorada. Bisa não saía mais de casa, nem para suas caminhadas matinais, pegava o sol da manhã na janela, e nem ao cinema, que ela tanto gostava de ir, ia mais. Ela celular, televisão e supernet o dia inteiro.
Uma noite vasculhava o apartamento em busca de alguma coisa, perguntei o que era, e ela disse: uma caneta. Caneta, bisa? Pra quê? Temos o teclado virtual holográfico. Mas ela queria porque queria uma caneta. Deus do céu, onde encontrarei uma caneta para minha bisa? Será que alguém ainda fabrica? Consegui um lápis com um idoso que morava no nosso condomínio e desenhava à mão, como antigamente. Bisa sossegou. Desandou a escrever como eu nunca tinha visto. Escrever é realmente algo muito interessante, mas dá muito trabalho corrigir. E onde guardaríamos tantos papeis?
Daí vieram outras manias.  Comprava comida e cozinhava feito doida, como se estivesse em guerra e corresse o risco de faltar mantimentos. Fazia pão em casa, doces os mais variados,  congelava tudo e inscrevia-se em todos os cursos on line que apareciam em sua linha do tempo, no tal Facebook, que ninguém usava mais há muitos anos. Depois se esquecia dos cursos e continuava sua imensa lista de inscrições.
E não foi só. Pegava roupas que pouco usava, demanchava e confeccionava máscaras de todos os modelos e tamanhos, queria distribuir para os pobres. Eu tentava explicar que todos já tinham. Mas bisa não se convencia. Se por um lado eu a via feliz, ocupada, por outro me entristecia o fato de estar caduca.
Vamos caminhar bem cedinho? Tentei, mas ela não queria se arriscar, dizia que era grupo de risco e que não havia respiradores e leitos para todos, que davam preferência aos jovens. E lamentava a triste sorte dos médicos, que tinham que decidir quem morre e quem vive, na distribuição de vagas e respiradores nos hospitais.
Ontem à noite, ela me chamou com toda a calma, disse que não sabia em que mundo eu vivia, que queria muito que eu a ouvisse sem interromper. Sentamos, uma ao lado da outra, fiz o silêncio prometido, e escutei (gravando), então ela disse:
- “Ouvi falar da epidemia pela primeira vez no início de março de 2020. Tinha um encontro de constelação familiar e fomos, a turma toda do curso, normalmente, apenas evitando beijinhos no rosto, brincando e cumprimentando-nos com os pés, ainda achando graça. No final demos muitos abraços uns nos outros. Eu tinha uma hóspede em casa,  e recebemos várias visitas durante o fim de semana. No domingo, uma pessoa veio ao meu apartamento e disse para minha hóspede voltar correndo pra cidade dela pois e breve as estradas poderiam ser fechadas e ela, impedida de voltar.  Ela fez as malas depressa e foi-se embora, eu não disse nada, mas achei um certo exagero. Daí começaram a chegar as notícias de fora do país e ficou mais claro que era uma pandemia e que o mundo inteiro estava sofrendo.
Fiz compras pelo telefone e guardei mantimentos não perecíveis que duraram meses, paguei no cartão, com medo de faltar comida, encomendei algumas máscaras com a costureira minha vizinha e ela ria de mim, assim como as pessoas que me viam de máscara na rua. Poucas semanas depois, estava quase todo mundo mascarado, e agora a mascara é obrigatória.
Na primeira semana, acordei antes do sol nascer, e caminhei no parque perto daqui, sentindo-me estranha naquele lugar, antes tão cheio de vida, completamente deserto. Animais diferentes saíram de sues esconderijos, ouvíamos mais cantos de pássaros, até camundongos mínimos que nunca haviam sido vistos por ali.
Antes de pandemia, eu estava com crises de pânico, não conseguia sair às ruas sozinha, e quando tentava, sentia ânsias de vômito e era obrigada a voltar pra casa. Com a maioria trancafiada dentro de casa e as ruas vazias, confesso que até melhorei e comecei a sair para o parque calmamente, como se o mundo estivesse finalmente no mesmo fuso psicológico que eu.
As pessoas, que antes mal telefonavam, só mandavam mensagens por whatsapp , começaram a fazer vido chamadas, e isso virou um hábito,  eu conversava por vídeo com outras pessoas isoladas sozinhas em seus apartamentos, e assim, por videochamadas, comemoramos três aniversários e o dia das mães.
Mas os artistas resistem, e fazem lives diariamente, todos correndo e aprendendo a usar recursos de internet que estavam, antes, ainda encubados. Houve um boom de cursos, palestras, aulas de yoga, ginástica, história, música, tudo on line. O mundo virou uma telinha.
Corri para a cozinha, onde quase não entrava, e passei a cozinhar, como não fazia há décadas. Tive o privilégio de viver num tempo em que as empregadas domésticas eram mão de obra barata, podíamos pagar, inclusive muitas moravam com a gente e só iam pra casa de quinze em quinze dias, outras vieram do Ceará diretamente para nossas casas e lá moravam, tinham filhos às vezes, traziam outros parentes e a gente ia empregando nas casas de familiares. Portanto, eu mal frequentava a cozinha. Passamos, todos, a cozinhar, aprender novas receitas, arrumar armários, e fazer aquelas coisas todas que nunca sobrava tempo pra elas. Arrumar armários, rasgar velhas fotografias, tornar-se mais leves, despegando- nos de livros que jamais voltaríamos a reler, e de roupas que jamais voltaríamos a usar, guardando-as só por apego mesmo.
Mas essa fase também passou e corremos para os vídeos, filmes, séries, cursos on line, tentando ocupar-nos o maior tempo que pudéssemos. Toda essa loucura com o país nas mãos de um presidente sem a menor empatia com o povo, um homem que, ao ouvir o número de mortos aumentando diariamente, disse: E daí? Não sou coveiro.
Isso nos deixa ainda mais inseguros. Todos os dias a imprensa noticia mais quinze dias de isolamento social, fala em possível lock down, mesmo que a maioria esmagadora da população não tenha a menor ideia do que seja isso em inglês.  Uns governadores tentam flexibilizar as medidas de fechamento do comércio, outros ignoram as medidas e acabam, eles mesmos, contraindo o vírus.
Tive fases de insônia, de choro, de depressão e saudade dos amigos e da vida, acordamos sempre no dia de ontem, os prédios são desinfetados, os porteiros usam obrigatoriamente máscaras, e alguns amigos contraíram a doença, uns de modo leve e em casa, outros vindo a óbito.
Meu implante dentário provisório me causa muita aflição, como deixar alguém mexer dentro da minha boca, se a doença é contraída pela s vias aéreas? Se meu implante cair, ainda posso usar máscaras pra disfarçar.
Pra me divertir um pouco, encomendei várias máscaras para usar combinando com minhas roupas, mas como quase não saio de casa, apenas me visto, faço uma selfie engraçada e volto a usar as roupas de andar em casa, sempre de batom, pois são comuns agora as chamadas de vídeos. As mulheres estão com as raízes dos cabelos brancas, aquelas que nunca pintaram o cabelos sozinhas, o que não é o meu caso, que pinto de preto desde os dezoito anos. Mesmo assim , encomendei tinha na farmácia e chapisquei o banheiro todo.
Há dias em que meu apartamento fica um brinco, insisto em fazer a cama diariamente, como se fosse entrar alguma visita de repente no apartamento.
Depois relaxei. Amanhã faço a cama, digo pra mim mesma, ou depois de amanhã, ou sábado, se sábado vier.
Uma sensação de morte, de luto, de guerra, de fim de mundo.
Tentei olhar  a pandemia com um olhar histórico e assisti muitas palestras sobre outras epidemias, até descobrir que não foram os europeus os que dizimaram os índios das Américas, invadindo o mundo novo. Quem destruiu a os habitantes das Américas foi a varíola. Reli A Peste, vi a série Panemia, no Netflix, reli Sapiens, qualquer coisa que me desse um olhar histórico sobre esse momento difícil que estamos vivendo.
Aqui e ali, notícias de animais selvagens, ou ocultos, surgindo nas ruas desertas. Tucanos, papagaios e pássaros, até iguanas, camelos, macacos,e onças.
Recebo diariamente vídeos de macacos em piscinas de condomínios urbanos, de famílias inteiras de antas passeando tranquilamente por ruas desertas.
Alguns artistas brasileiros faleceram até agora, a maioria pelo vírus. A secretária da cultura, uma tal Regina Duarte, que foi eleita a Namoradinha do Brasil da Ditadura, primeiro desapareceu do mapa, deixando a classe artística em polvorosa, teatros e cinemas fechados sem data para reabrir, depois deu uma entrevista desastrosa dizendo:
- O mundo me ama!!!
Sobre as mortes, de milhares de brasileiros e de alguns artistas, disse, entre outras asneiras: 
- Todo mundo morre. Eu não quero ser um obituário. Vamos ficar leves.
Devia estar drogada. Quinhentos artistas fizeram uma carta de repúdio à anciã com trejeitos de menina, mas ela ainda não se deu conta de que entrou num barco furado, e que é odiada hoje pela direita, pelo centro e pela esquerda, por artistas e não artistas, por olavistas e não olavistas, perdendo a chance de entrar para a história como atriz. Ingênua a ponto de achar que ainda é secretária da cultura, quando já há um bonitão bolsomínon fazendo as sobrancelhas para ocupar o lugar dela. Um garotão debochado de olhos azuis, jovem e fortinho de academia, do jeito que o presidente gosta.
Só a Regina não sabe, mas já está num ostracismo de dar dó.
Não tenho dó, nem dela nem de nenhum outro bolsomínion, nem da imprensa, ninguém teve a sensibilidade de enxergar o traste que elegeram, com o conluio da imprensa e dos odiantes do PT. Não sabiam o tamanho do monstro. Eu sabia, tenho vídeo filmado e postado antes das eleições alertando para o perigo e pedindo para que os eleitores de Bolsonaro saíssem da minha vida, mesmo da vida virtual.
Perdi o saco de cozinhar, e comecei a pedir comida por delivery, num momento em que almoçar nos restaurantes a quilo estava tornando-se um hábito tão comum que muita gente já nem tinha mais fogão em casa. Houve uma guinada, os restaurantes, todos, fecharam, e hoje estamos cozinhando, ou pedindo quentinhas. Os maridos tiveram que colaborar nas tarefas diárias, os bons casamentos se fortalecem enquanto os casamentos estragados começam a feder, com o casal trancafiado junto dentro de apartamentos pequenos ou casas gigantescas.
Deixamos de ver os amigos ao vivo, mas refizemos contatos com pessoas antigas, que não víamos há séculos, e estamos em conato com muito mais gente. Eu fico de olho nas pessoas mais solitárias ou mais sensíveis e sempre pergunto como elas estão, e faço graça falando das minhas máscaras novas e da minha nova burca e me acham doidinha, com isso riem e se divertem.
Minha meta diária é manter-me o maior tempo que puder de pé, qualquer coisa é motivo para eu me jogar no sofá até sentir câimbras nas pernas, de tanta imobilidade.
O pior é que não tenho planos para o fim da pandemia, estou aposentada, filhos criados, estudos completados,  e pânico. O que farei dos meus dias e das minhas horas quando a pandemia passar? Acho que continuarei confinada e em isolamento, como já estava antes.
Passei pela fase da negação, quando não acreditava na proporção planetária da pandemia, passei pela fase da produtividade, quando queríamos ocupar todo o nosso tempo disponível, lendo, estudando, enfim...’fazendo alguma coisa’.
Superei a fase da tristeza profunda e da profunda paranoia, parei de chorar diariamente e a ter ânsias de vômito todas as manhãs. Tive também um período em que passava o dia inteiro ao telefone, falando sem parar com as pessoas, mesmo as praticamente desconhecidas. Pintei algumas paredes com a tinta que tinha em casa, tentei tocar violão de novo, reli os principais livros que moldaram meu pensamento e nortearam minha vida. Dormi a tarde inteira diversas vezes, com ou sem remédio, acompanhei notícias o dia inteiro, virei noites, desliguei televisões e Internet, desliguei-me de tudo, passei a ler as notícias apenas uma vez por dia, passei por todas as fases, e os domingos eternos não passavam. Sempre que acordava, dava de cara com o dia de ontem. Se eu fosse Heráclito, diria que eu me banhava no mesmíssimo rio toda manhã, há meses.
O mais desconcertante é que o Brasil é o único país no mundo inteiro que as primeiras páginas dos jornais e as chamadas do noticiário não são somente a pandemia, mas os desastres do presidente e sua equipe. Não só ignora tudo que acontece à sua volta. Pior. Quer que a economia ande, que o comércio abra, contra todas as recomendações de todos os órgãos e institutos de saúde. E contraria governadores, prefeitos, médicos, enfermeiros, ignora a pane do sistema de saúde, a falta de leito e respiradores, tudo. Vive numa bolha à parte, só pensa em si mesmo e na sua família, quase todos implicados em algum crime, de desvio de dinheiro a assassinato e formação de milícia.
Temos, neste momento, um STF enfraquecido, sem moral, sem autoridade, todo o sistema parece estar nas mãos desse lunático. Diz barbaridades, palavrões, ofende a imprensa,  as mulheres, defende torturadores, nunca imaginei viver isso. Participei do Movimento Diretas já, após a ditadura, e hoje vejo esse louco, eleito pelo povo, ser defendido por um grupo grande de pessoas. Incompreensível tudo isso.
Para não enlouquecer, vivo um dia de cada vez, remando de acordo com a maré. Critico e xingo o presidente pelas redes sociais porque sei que ele se baseia nelas.  É o que posso fazer, por enquanto.
O número de mortos e infectados só faz crescer. O número de leitos disponíveis nos hospitais só faz diminuir. Como posso, agora, relaxar meus cuidados?
O que me consola é que eu era jovem na revolução sexual e agora estou velha na pandemia. Já pensou que horror o contrário? Velha na revolução sexual, sem poder dar pra ninguém e jovem na pandemia, tendo que ficar trancafiada em casa, sem nem poder beijar na boca.
Semana passada foi a entrevista infeliz com a secretária da cultura, cantou o hino da ditadura, balançou a cabeça pra lá e pra cá jogando os cabelos, pensando que ainda tem trinta anos, com aquela vozinha de moçoila irritante. Não quis homenagear os mortos famosos, artistas como ela, atores, músicos, intelectuais que morreram, teve a audácia de dizer que a secretaria dela não é um obituário. Disse que o presidente é muito educado, divertido, e outras asneiras. Os jornalistas imprensaram a Regina contra a parede, ela chamou os seguranças, se descabelou toda e a entrevista foi interrompida no meio da primeira aparição pública dela, após a posse. No final do vídeo dá até pra ver uma mãozinha que ia tampar a câmera. Disse que morrer é normal. Só faltou completar com um E daí? , como o presidente. Mal sabe ela que já subiu no telhado, como se dizia naquela piada antiga. Não dura mais nada no cargo, será sua derrocada, poderia ter terminado de envelhecer como a namoradinha do Brasil, mas optou por morrer em vida como a noiva mórbida de um presidente que vai entrar pra História como o mais canalha. Perdeu o contrato com a Rede Globo, um contrato de cinquenta anos, pra você ver como ela é velha. E vai passar o resto da vida ganhando a pensão do pai militar, como marido ruralista, olhando bois no pasto. Nem os bolsomínions genuínos querem ver a cara dessa desalmada. Que papel ridículo, que falta de noção. Que desgosto pro nosso Brasil, não é, querida? Um país tão rico, tão alegre e promissor, apesar das desigualdades imensas que estão vindo à tona. Essa é a minha esperança. Que tudo isso que estamos passando sirva para alguma coisa.
E não falo só do preço que pagamos em vidas, mas também em tristeza, lágrimas, saudades, depressões, um preço que nunca quitaremos. Quem está vivo agora nunca vai esquecer tanta miséria humana. Miséria pior do que a de falta de recursos, pior que a fome e o abandono. Um desprezo imenso pela vida, isso é o que estamos presenciando. Sei que o desprezo sempre esteve aí, mas agora ele é celebrado e postado nas redes. E que susto levamos, vendo pessoas das quais gostávamos defenderem a abertura do comércio e justificarem a perda de vidas, desde que o capital não deixe de girar. Se morrerem trabalhadores, há muitos desempregados para substituí-los, é o que pensam. E abrem covas no país inteiro. Covas e mais covas, para o afrouxamento do distanciamento social, do confinamento. De doer, isso.
Outra coisa que me consola é que eles, presidente, ministros, secretários, governadores, deputados, senadores, prefeitos, todos brigam entre si. Quando eu era mocinha, achava que tinha que pegar em armas e fazer a revolução. Hoje, que estou velha, é diferente. Não vamos pegar em armas. Os políticos se devoram entre si e posso assistir sentadinha no meu sofá, comendo pipoca,  a derrocada de cada um deles, mas até quando? Tenho mais de sessenta anos, será que a pandemia vai durar muito tempo? Estarei viva no final de tudo?
Estou muito triste. Há quatro meses não vejo minha filha nem minha neta. Imagina o que é isso? Minha neta já cresceu oito centímetros e eu não vi. E o que é pior: não sei quando voltarei a vê-las. Nem sei se voltarei a vê-las.  É como se eu estivesse em outro mundo, uma sensação de morte muito, mais muito triste. Viveremos uma “nova normalidade”? Como será esse normal, estarei nele? Tenho muito medo. Mas sei que o medo é normal. Quem não está com medo nesse momento está fora do ar, negando, doente. Quero abraçar minha filha, minha neta, ela só tem onze anos. Queria tanto vê-la adulta, mocinha, vou sobreviver a tudo isso? Nem tenho medo de morrer de vírus, mas de tristeza.  Tenho medo do presidente, tenho medo de seus eleitores, estão todos soltos, andando pela rua, com tanto ódio no coração. Bolsonaro vai acabar com o Brasil. E você, quem é você? Obrigada por me escutar. Você me lembra muito minha neta, que saudade dela”, concluiu. Não fossem acontecimentos de décadas atrás, parecia perfeitamente lúcida.
Olhei nos olhos dela, e disse, com calma:
- A senhora é minha bisa querida, tudo isso já passou. Minha avó tá ótima, minha mãe também. A senhora acabou de completar cem anos! E com saúde, com amor. Bolsonaro já morreu há décadas. Houve muitos presidentes depois dele.
Minha bisa balançou a cabeça e me olhou com seus olhos de gelatina, olhos poídos de olhar, amorosos. Não sei se me reconhece. Abraço-me a ela, que corresponde, alisa meus cabelos, balança a cabeça e diz, com ares de senhora sábia:
- Bolsonaro? Morto? Tudo fake, minha querida, amanhã ele ressuscita e desmente.






08/04/2020

Diário de uma quarentena 001


#DiariodesessentenaGloriaHorta
24/03/2020
001.Querido diário. Bom dia. Há quanto tempo. Tenho uma notícia boa e uma ruim. A ruim é que o mundo está passando por uma pandemia. A boa é que estou me transformando numa excelente dona de casa. Coisa que nunca fui. Apesar de tudo, é bom reencontrar você.
Vamos ver hoje como será meu dia. Já lavei as compras: potes de requeijão, temperos, material de limpeza, garrafas de mate etc. O bunker tem provisões para muitas semanas. Depois vou regar as plantas, fazer tapioca e café e dar comida e água pra Tati. É minha gata. Também preciso recomeçar a aprender violão e rasgar fotografias.
Aceitei que sou idosa. Há uma campanha, que tentamos desobedecer, para que idosos, esses principalmente, não saiam às ruas. Preciso pegar dinheiro no caixa, mas estou com medo de sair com minha mecha branca.
Estou ouvindo o álbum branco dos Beatles.
Muitas transformações estão acontecendo comigo. Depois te conto. Agora preciso correr pois ontem esqueci de lavar as caixas de sabão em pó e as bananas. Vou passar batom e lavar as mãos, como tenho feito de hora em hora. A qualquer momento pode acontecer uma contaminação ou uma chamada de vídeo. Até já.

002.Querido diário: Boa tarde. O coroavírus curou meu pânico, Chato confessar isso. Parecia que o mundo andava às pressas, que se movimentava rapidamente, menos eu, meio confinada. Agora tudo ralentou, e estou junto comigo. Só por hoje não descerei para conversar com os porteiros. Um dia de cada vez. Sou grupo de risco. Na mesma semana, sou obrigada a ficar em casa e convocada a tomar vacina no posto cheio de velhinhos em fila. Fiz um frango que não ficou lá muito bom e que nunca acaba. Comprei tantos temperos que vão durar a vida toda. Vou tentar carne moída. Estou com os olhos marejados porque estou ouvindo Dear Prudence, dos Beatles, e fiquei comovida com a letra, principalmente naquela hora que diz: “Dear Prudente, wont you come out to play”. Natural. Vou jogar o lixo fora e em seguida tomar meu banho. Achava meu apartamento pequeno e agora, tendo que limpá-lo, cresceu bastante. Lavei as roupas pretas na máquina. Varri a sala por conta dos pelos da Tati (minha gata). Na minha frente, há uma pilha de lençóis limpos amassados. Será que terei que passá-los? Não sei onde a Rosana guarda o ferro. Toda hora ligo para a minha faxineira, tantos anos cuidando de mim e de minha casa. Ela está atendendo online, tipo teletrabalho. Aproveito o ensejo para agradecer a ela. Em uma semana não faço o que ela fazia em um dia. Pequei o violão e ressuscitei Canto de um povo de algum lugar. Não sei bem o porquê, lembrei do maestro Marcos Leite.Quando estiver bem ensaiado, toco pra você. Minha voz está entocada, meus dedos, frágeis, mas estou conseguindo fazer umas pestanas. A panela já está preparada na janela, à espera dos meus amigos longínquos. A hora mais alegre do dia. Meu batom está gastando muito rápido, estou sempre preparada para vídeochamadas. Meu sobrinho, que mora em Amsterdam, me chama todo dia. Meus amigos do curso de Constelação fazem encontros online pelo aplicativo. Vejo filhos e netos também pela telinha. E saboreio o canto da minha filha e do meu genro nas lives. Configurei o alarme pra não perder essa alegria diária. Vi pó na prateleira. E ainda nem consegui descongelar a geladeira. A violência doméstica aumentou em cinquenta por cento, segundo o jornal. Sugiro, comprovado o fato, que cada mulher ameaçada ganhe uma caixa de Dormonid pra colocar nas refeições do agressor. É o que podemos fazer por enquanto. Envenenar não vale. A roda da vida vai voltar a girar e será impossível esconder tantos corpos. Minha amiga Bete me ligou pra dizer que está gostando do diário. Disse que tem uma vassoura só dela, atrás da porta, pintada de rosa. Temos rido toda noite, como antigamente. Com a Leila, de longe, também falamos toda noite. Nossas lembranças são muito divertidas. Tenho dado risadas diariamente. Com Carlos e Sheila também. Não estou só no apartamento. Antes do lixo e do banho, vou cuidar das plantas na minha janela, que carinhosamente chamo de varanda ou jardim, pois crescem vertiginosamente. Há uma mandala grande e um livro pra terminar. Tenho dormido melhor agora que o mundo parou, e acordado mais cedo.Essa noite sonhei que as favelas e as comunidades davam um exemplo de cidadania e solidariedade, deixando os condomínios do asfalto pasmos.
Até de noite.

Rio, 25 de março de 2020
003.Querido diário: O perigoso presidente da república falou, em cadeia nacional, que estamos exagerando em insistirmos nas campanhas de não sair de casa. Acho que é uma espécie de Jim Jones americano, quer morrer ao lado de seus eleitores. Algumas favelas estão organizadas, a maioria, não. Tememos por um genocídio coletivo de pobres e bolsomínions. Toda noite tem panelaço. Tô tentando segurar a onda. Não pisei nem no corredor nos últimos dias. Meu porteiro preferido traz as coisas pra mim. Quero continuar viva, e confesso que tenho medo de sair à rua com minha mecha branca e ser apedrejada, vaiada, ou caçada pela carrocinha e virar sabão. Tenho mais de sessenta anos e estou obedecendo. Tenho medo de drones me filmarem na rua e minha família se afastar de mim. Se eu fosse sozinha no mundo, ia direto pro parque aqui perto, deserto.
Preciso levar o meu lixo e tomar o meu banho em seguida, tentar finalizar aquele peito de frango eterno que eu como e ele não termina. Não são tempos de se jogar comida fora. Tenho limpado a casa, mas, se essa pandemia demorar, vai ser preciso arrastar os móveis pra limpar embaixo. Combinei comigo assim: cada dia arrasto um pouquinho. Em algumas semanas, estarão todos fora do lugar, daí posso passar vassoura e pano e depois fazê-los retornar, sempre aos pouquinhos. Pode durar meses.
Acho que essa noite pode ter uma salva de palmas para as faxineiras, vou propor no Face. Esses, os maiores desafios da sessentena: manter a casa limpa e a mente sã. Quanto a exercícios físicos, tento me manter de pé pelo menos umas três horas antes de me jogar no sofá. É o máximo que consigo, por enquanto. Tenho muitos medos. De não conseguir nunca mais sair de casa no dia que esse pesadelo terminar, de continuar usando álcool em gel para sempre, de me dar uma louca e sair correndo até o mar e me jogar. Não consigo correr, então essa loucura tá descartada.
Medo do meu implante provisório cair e eu ficar de sessentena e com dente faltando, sem poder sequer fazer videochamadas. Tô escolhendo a música que vou treinar hoje. Pego meu álbum de música antigo, e ele é tão antigo que está datilografado ou escrito à mão, e já foi a tantos lugares que tem areia, páginas manchadas de chuva, uma folha, marcações de pessoas que há anos não vejo.
Iolanda, Ouça,Nature Boy, Let it be, Dia branco, No woman, no cry, Ovelha negra, Imagine, Xote da meninas, Vamos fugir,  Quereres, Scarborough Fair, Volver a los 17, A noite do meu bem, Estranha forma de vida, Sol de primavera, Love of my life, Cio da Terra, Drão, Nosso estranho amor, O que será que me dá, As rosas não falam, London London, Let it be, Shy moon, Gracías a la vida, Fogueira, Asa Partida, When I am sixty Four, Sound of  silence, Nowhere man, Shy moon, Canção da América, Sol de primavera, Nascente, Sandra, TODAS hoje me entristeceriam. Depois dos sessenta, é tanta lembrança junta na cabeça da gente, que é difícil seguir em frente desapegada e inteira, carregando a mala das nossas escolhas..
Os idosos estão presos, não só no apartamento, mas também na caixa de memória. Se alguém me dissesse, em 1979, que em 2020 estaríamos todos vivendo confinados numa pandemia, eu cairia na gargalhada. A vida era uma gargalhada de biquíni, batom e brinco, com muito sol. Tive sorte.
Estou nostálgica mas otimista. Esse pandemônio veio para nos curar, a todos e a Terra, tenho certeza. Tem pó na estante de livros da sala, tô vendo daqui. Desculpem, mudei o assunto, mas é tanto canto na sala que acho que nem vivendo cem anos trancafiada, conseguiria mantê-la um brinco.
Olho para a porta e imagino minha filha, meu genro, minha neta entrando, meus amigos, sobrinhos, primas, minha queridíssima faxineira. Estarei com cabelos brancos até a cintura? Estarei sã? A Terra estará salva?
Tenho que limpar o filtro, terminar o livro, decorar os acordes, passar um pano nas prateleiras, jogar fora o lixo, tomar banho e me arrumar pra falar com as pessoas queridas pelo novo aplicativo, e tentar terminar de comer aqueles imensos filés de frango, pra ter certeza que já é outro dia.
Preciso caminhar cantando pelo apartamento e tentar dançar ao som do Caetano Veloso, que está cantando no Youtube pra mim agora. Lave sempre as mãos, Caetano. Não saia de casa, Chico Buarque. Não conseguiria viver num mundo sem vocês.
Não sei se visto uma camisola, uma roupa bonita ou se fico logo pelada dançando, seria uma atitude divertida e rebelde. Como diz minha neta, “na dúvida, finja-se de louca”. Tá certa, é esperta. Antes de pegar o espanador, vou ouvir a mensagem dela de novo no whatsapp. E tentar preparar uma música pra de noite, mesmo que meio desafinada. Alegro algumas pessoas, com meus micos. Estão todos pagos. Como dizia Rita, já são parte do orçamento. Os micos me rejuvenescem.

Rio, 26 de março de 2020
004.Querido diário:
Décimo dia de quarentena. Segunda manhã com enjoos. De tarde, treino o violão e limpo uma prateleira da estante. Total quatro. Logo termino. Hoje me dei folga. Só lavando louça e pensando em pintar uma mecha de cabelo de azul, desbotou tudo. Há muitas formigas pequeninas no sofá, deve ter caído uma balinha embaixo, acho. E agora?
A escrita me pegou de novo e estou contente com isso. A arte é contagiosa. Leiam a mensagem que recebi no grupo, da Maíra Baky. Também conhecida como a palhaça Dotora Clô. Encantadora.
“Oi Glória 
Gosto de ler seus relatos, me fazem sorrir e chorar, nem sempre na mesma ordem.
Senti vontade de te responder. Como mensagens em garrafas, espero que chegue até você, ou a outro náufrago que possa nos resgatar. Quem sabe isso ajuda a tirar o tédio ou a tristeza da minha vida?
Houve uma época que eu quis ser escritora. Cheguei a fazer Letras. Tinha até um blog. Foi antes de fazer biologia, depois de largar a dança. E naquela época nem pensava em fazer teatro.
As voltas que Terra plana dá, não é mesmo? Eu era boa. Não me lembro porque desisti. Ah lembrei, eu achava mais importante ser cientista e pesquisar a vida. Devia ter continuado pensando isso, a essa altura estaria ajudando a entender como esse vírus funciona.
Mas eu era artista demais pra ficar trancada em laboratório. Uma vez eu fiz uma cagada, misturei as moscas, achei que tinha contaminado os repiques, tive que pedir ajuda pros doutorandos verem se os olhos vermelhos das moscas eram daquele jeito mesmo. Fiquei com tanta vergonha que sumi do laboratório e quase matei as moscas. Era minha responsabilidade. E achava pesado demais ser responsável pelas estirpes das moscas. Ah, se alguém me dissesse que eu seria responsável em 2020 por tantas pessoas numa pandemia... eu ia morrer de rir. Nunca quis me responsabilizar por nada nem por ninguém. Agora sinto que todos ao meu redor dependem de mim. Ainda não me acostumei com o papel de adulta da família. Preferia ser a filha adolescente. 
Hoje foi aniversário da minha mãe, apesar do risco chamei um Uber e fui até a casa dela com Tayná. Ajudei com compras, comprei um bolo, chamei algumas tias no computador pra elas se falarem.
Foi um dia bom.
Agora já voltei pra casa e estou triste porque não sei quando a verei novamente. Tenho medo por todas as pessoas. Na minha casa tenho uma idosa asmática. E minha filha, que tem alergia respiratória, mas a pediatra falou que não pode chamar de alergia antes dos cinco anos. 
Agora ela tosse de noite e eu fico surtada três dias direto, colocando a mão na testa dela, lavo mão e meço a temperatura com a mesma mão. Não sei se é certo fazer isso. Mas como saber se a pessoa tem febre sem colocar a mão na testa? Eu tinha quatro termômetros, você acredita que todos quebraram? Dois eram importados nunca foram usados. Devem ter sido comprados quebrados igual a essas “coisas da China”, ou esses produtos baratos do Paraguai. Outro, de mercúrio, Tayná quebrou. E um que estava funcionando, parou. Acho que a bateria acabou. Vou ter que arriscar minha vida de novo pra comprar um termômetro. 
Minha mãe tinha deixado “minhas coisas” pra eu trazer pra casa. Não sei onde enfiar tanta tranqueira. O espaço está cada vez mais apertado porque  eu tenho que tirar tudo do quarto da velha asmática por causa da poeira. Onde eu vou enfiar as coisas sem o quarto da bagunça?
Fica difícil se manter saudável assim.
Esse presidente maldito falando essas coisas me deixa muito preocupada. 
Sinto que chegamos no apocalipse... não sei se voltaremos a ter uma vida normal.
Estou tentando manter uma rotina saudável aqui, alimentação, exercício, meditação... muita conversa para lidar com as pessoas... o mais difícil é a saúde mental mesmo. Tem dias de muito nervoso, tem dias de tristeza. E outros que passam rápido. Ontem brigamos por causa da frigideira. Essa coisa diet de não usar nem azeite pra fazer os ovos... queria que a porra da nutricionista ensinasse a lavar a frigideira. Cada um que lave quando usar! 
Meu maior medo é matar alguém antes do vírus. Não. Meu maior medo é morrer de corona vírus. Não. Meu maior medo é eu pegar o vírus, carregar numa sacola, e entregar pra alguém dentro de casa. Alguém que eu quero que morra. Mas eu não quero que ninguém morra. Não de corona vírus. 
Ah, adorei saber que você toca tantas músicas. Quando puder canta Cio da terra, eu amava muito essa.
Beijo no seu coração. E relaxa, poeira não mata ninguém só velha asmática. Você tem asma?

Rio, 25 de março 2020
005.Querido diário: No dia 6 de março, viajei com meus colegas do curso de Constelação para Teresópolis, onde saudamos o sol, tivemos belas aulas e cantamos num sarau improvisado, felizes, apesar das dores de cada um. No dia 9 de março, eu estava com minha neta mais velha no show do Ordinárius Vocal, no Theatro Net. No dia 13, numa constelação com a Malu Palma, evitando beijinhos. No dia 16, comprando luvas, álcool gel e máscaras. No dia 23, pedi compras para o mês inteiro e hoje, dia 27 de março de 2020, estamos todos confinados em casa, apavorados com a irresponsabilidade de um presidente, eleito pelo povo, pelos que o escolheram e por aqueles que se abstiveram, não tendo a sensibilidade de perceber que um homem que defende abertamente a tortura e homenageia um torturador, boa coisa não poderia ser.
Acordei antes do sol nascer e pensei em fazer uma burca e sair de luvas e óculos escuros, atravessar a rua disfarçada e caminhar até o riacho do parque em frente ao meu apartamento, que até pouco tempo atrás eu me referia, como a maioria de nós se refere ao lugar onde mora como “casa”. Herança dos avós, talvez, antes dos arranha-céus que sangram as nuvens hoje.
Ouço música o dia inteiro e de noite, e quando ela para, ouço um zumbido nos ouvidos. Como quase todos, às vezes choro. Mas muitas vezes canto. Recuperei a escrita, pois só ela me salvou nos momentos mais difíceis. Escrevendo, transbordo, rio, reclamo, resgato minha alma, tão perdida. Sim, tenho medo do vírus. Mas tenho mais medo ainda de um presidente que saiu do exército por problemas mentais, que avacalha com estudantes universitários, professores, pesquisadores, governadores, médicos, OAB, STF, e abandona nosso país à deriva, preparando uma campanha que incentiva a população a sair às ruas para trabalhar, indiferente às mortes que ocorrem no mundo inteiro, e pior, ao colapso dos hospitais, já em estado de abandono antes da pandemia. Há países construindo, às pressas, mais cemitérios, outros onde os ratos atacam os moradores de rua em busca de comida, há médicos e outros profissionais da saúde adoecendo, há ruas vazias, mentes desesperadas, amigos infectados, uma luz de emergência acesa sobre o comportamento dos humanos nesse Planeta tão generoso. E o doente mental eleito nunca nos ofereceu uma palavra de esperança.
Há a tristeza de ver amigos com estudo apoiando o psicopata, contradizendo a verdade em que, inocentes, acreditávamos: que seus eleitores não tinham estudo e por isso se deixaram enganar. Vejo, tristíssima, antigos colegas de faculdade, companheiros de encontros musicais, uma médica infectologista, uma colega que viajava comigo nas férias há anos, excelente companhia, e até uma parente, criada com todo conforto e estudo, por um pai amoroso e com princípios, vejo gente com as quais convivi apoiando o genocida que deixa o país acéfalo. A incompreensão vem em dose dupla. O que me salva são os amigos, de verdade e virtuais, que compartilham comigo indignação e mensagens de esperança. A maioria da minha rede, de onde excluo, sem dó, os cúmplices da irresponsabilidade desse patético presidente.
A saudade é maior que o pânico, que o ódio. Mas não é maior que o desamparo dos desafortunados, que o abandono dos moradores de rua, que o descaso com os brasileiros que vivem em comunidades ou favelas sem água sequer para lavar a mãos. A saudade só não é maior que o tamanho do Planeta.
Hoje abri caixas de linha, peguei mandalas começadas e livros para reativar todas as artes possíveis dentro do apartamento. Gostaria de rasgar fotografias que ocupam muitas malas, caixas e gavetas, de um tempo no qual eram impressas em papel, mas não tenho coragem. Talvez me emocione em ver tanto passado guardado. Talvez aproveite a oportunidade para zerar a vida e recomeçar no novo mundo que talvez nos espere, ressignificado após pane do Planeta. Acontece que, sempre que rasgo fotografias de uma pessoa sumida no tempo, ela reaparece. Não sei se isso só se dá comigo. Então reflito. Talvez jogue fora as fotos daqueles que quero rever ao vivo e com saúde. E deixe quietos os fantasmas. O mesmo se dá com objetos: tinha dois tambores que durante mais de dez anos somente enfeitaram a sala. Num apartamento superlotado de enfeites, dei os dois de presente para pessoas queridas, e agora queria bater bem alto nos momentos de panelaço. Também joguei fora fotos de pessoas que haviam desaparecido até do Facebook, e elas, logo em seguida, me telefonaram.
Paro de pensar e vou para a cozinha, para máquina de lavar, para pia, para a vassoura, para os pequenos movimentos cotidianos que eu havia abandonado. O dia passa depressa, de noite tem panelaço, orações pela janela, confraternização a distância, o que me enche de alegria. Também fico feliz em ver minha filha e meu genro nas lives diárias, produzindo, sorrindo harmoniosos apesar do confinamento. Fico feliz em ler os poemas dos meus amigos do curso, todos estimulados pela força da alegria e da vida, que vai prosseguir em paz, tenho certeza, após essa tormenta.
Fico feliz durante as vídeochamadas e os longos telefonemas de amigos, dos que moram perto e dos que estão presos em outro país.  Fico feliz celebrando, mesmo que por aplicativos, os aniversários dos arianos que amo, pois tenho certeza que nosso reencontro nos trará maior consciência do quanto nos amamos. Minha filha mais velha fará quarenta anos na quarentena, mas eu fico feliz assim mesmo porque somos uma família forte, e estamos todos protegidos em casa, e ela é linda, forte, saudável, e só me dá orgulho e alegria.
Por vocês todos, fico em casa, varro o apartamento, passo batom todo dia, raspo as pernas, passo rímel e perfume, fotografo cantos e objetos bonitos que me cercam. Minha casa, minha cara.  Por vocês cuido de minhas plantas. Por vocês, lavo as mãos, não saio às ruas, protejo-me.
Por vocês quero a minha vida de volta, e melhorada, quero um planeta sadio e um mundo reinventado. O preço será alto para a maioria. Mas torço para que a pandemia seja um sintoma, e que a doença da Terra seja sanada. Incluindo os excluídos, equilibrando as relações, respeitando as hierarquias, concordando com o passado, e amando, não com o amor que adoece, mas com o que cura.
Dentro de mim há um mundo que não se contamina.
Até breve.

29 de março 20202. Acordei e é domingo de novo. Abro os olhos atemporais e penso nos meus compromissos. Nenhum. Lembro que estamos todos isolados dentro de nós mesmos e dentro de apartamentos. Escolho Djavan para essa manhã ensolarada em que o Planeta se embeleza, temporariamente livre de nós, o vírus planetário. As ondas vão e veem normalmente. Peixes, tartarugas, siris aproximam-se, felizes, da areia vazia.
Acordei às sete. Normalmente voltava a dormir de novo, mas agora é perigoso. A cama pode me abduzir. A carreata de direita em prol da volta ao trabalho, os pronunciamentos do encurralado presidente desta república, boneco inflável de posto de gasolina, a inércia do Congresso, do Judiciário, a panfletagem vazia dos governadores e prefeitos, tudo me enoja.
Ligo o piloto automático enquanto espero a fresta de sol, e varro, lavo, faço gelatina, pondo roupas na máquina, cada vez menos roupas, já que o não saio, que o mundo está fechado.
Fotografo cantos do apartamento e escrevo, alternadamente, esperando o rápido banho de sol. À deriva, não sabemos o que esperar. Estamos, todos, em plena ficção científica. Sonhei que uma pessoa querida tem febre e acaricia meu rosto, mas estou apavorada, e me afasto, culpada e triste. Olho em volta e há mandalas por fazer, batatas por descascar, livros por ler, mensagens para responder, dias sem fim para viver. Vou procurar alegria em algum lugar do confinamento. Regar plantas e dançar talvez, sejam boas ideias. Calma, me digo, o dia vai passar, assim como a vida e a pandemia.
Não sei se pinto o cabelo de azul ou mudo os móveis de lugar, para garantir que amanhã eu acorde num dia diferente. Minha janela tem grades. Olho, uma tentação, o aparelho de ar condicionado. Estou magra, quase não como, talvez pudesse escapar por ali e alcançar a marquise do prédio. Seria fácil retirá-lo, e se alguém me visse?
Ontem desci de máscara e luvas para o banho de sol na garagem do prédio e me deparei com dois policiais de bobeira na galeria de lojas fechadas, sentados em banquinhos e fazendo gazeta, só depois me dou conta. Na hora temo, penso nos meus cabelos brancos, no meu grupo de risco, na obsessão em mandar os idosos ficarem em casa, e pergunto, idiotamente: Posso pegar sol ali?
Sento no meu banquinho portátil, e peço ao porteiro para que tire uma fotografai minha, de longe, no celular dele. Vê se ficou bom, ele diz, trazendo o celular, e eu quase dou um pulo: Não chega perto! Digo isso, mas caímos na risada porque é patético, e eu sei que estou engraçada nessa fantasia enquanto ele se espreme nos trens para chegar à nossa portaria, e conversamos um pouco, de longe.
Isso é o que me ocorre. Agora preciso descer porque o sol chegou nos ladrilhos e eu não posso perder.
29/03/20. Tarde. Peguei sol e conversei com o porteiro. Ele tira outra foto minha no sol do ladrilho. Me manda por whtasapp, de longe. Ele me contou que o trem veio cheio. Ele diz que vivemos uma sucessão de domingos. Parece entediado na portaria vazia, na galeria fechada. Vou pedir a síndica luvas e máscaras pra ele. Ela me detesta. Fiscalizo o prédio, mesmo antes do pandemônio. Minha amiga vizinha me chama da janela dela, ri de mim, talvez, e combinamos de pegar o banho de sol juntas manhã, separadas por dois metros, claro. Me oferece caquis e ovos. Vamos rachar, é muito, ela diz. Uma desconhecida de outro prédio me vê nessa situação meio ridícula, meio cômica e triste. Ri e acena. Aceno de volta. Medo que todo o prédio resolva me imitar. Não há sol pra todo mundo. Tento pegar o sol discretamente, presidiária, interna mas inteira.
De volta ao apartamento, Ouço A Barca dos Corações Perdidos, o Auê. Recebo uma mensagem no grupo. Uma das colegas perdeu uma amiga de quarenta anos. É preciso muita música e muitos telefonemas pra espantar o medo. O arroz integral está no fogo. De sete às dez me dedico ao apartamento. Depois, banho de roupa e tudo, e este diário que me consola. Ontem dancei uma música inteira. Não sei se sou louca ou forte. Ou ambos. Fizemos uma reunião virtual para celebrar o aniversário de dois entes queridos. Nada de notícias, só de noite.
Programa para a tarde: aula no Instagran coma Duda Maia, palestra no Youtube com o Leonardo Sttopa, live do grupo vocal Ordinarius, onde vejo minha filha e meu genro todo dia, unidos e alegres, e divertidos, acalentando a solidão dos solteiros e das famílias. Ela menciona o aniversário do pai e deixa escapar lágrimas. Enxugo as minhas e corro para a penteadeira. Passo batom e rímel, penteio os cabelos de raízes cada vez mais brancas.
Um dia abrirei a porta de cabelos brancos até a cintura, sã e salva? O mundo enterra seus mortos, enquanto o Planeta agradece. Mas os vivos se agarram com unhas e dentes à alegria. Tem aula de yoga e shows on line. São tantos que me perco na agenda.
Fotografo os objetos que me cercam, tanta coisa pra limpar. Talvez eu devesse desapegar-me deles e montar uma clausura. Talvez eu deva produzir outros, mandalas, mantas e tapetes, e enfeitar ainda mais meu horizonte.
Saudades dos amigos, do mar, dos anos setenta. Saudades dos hippies, da revolução sexual, da dança afro com Rose Domingos, dos passeios de bicicleta. Da Leila, avó agora, presa em Lisboa e de abraços.
Quando o pandemônio acabar, sairemos às ruas nos abraçando, como nos finais de guerra? Haverá uma explosão artística como nos tempos da ditadura? Quem serei eu, quem serás?
...



Acordei às seis, levantei da cama, espreguicei-me, imitando minha gata, chorei por conta da pandemia, lavei o rosto, escovei os dentes, liguei o Spotfy que, infelizmente, toca o artista que escolho e, por vontade própria, cismou que eu gosto de Zeca Pagodinho. Procurei uma opção de bloqueio, mas só encontrei Minha Lista. Fiz café e tapioca, vesti-me disfarçada de mais nova, com medo da carrocinha: chapéu, óculos escuros, máscara, minissaia porque as pernas enganam minha idade vistas de longe, senti ânsias de vômito e pânico, respirei fundo, escovei os dentes de novo e saí para caminhar durante uma hora no Jardim Suíço, onde as pessoas evitam-se no labirinto de caminhos, e são muito poucas, dei bom dia aos poucos transeuntes, e aos guardas, como todos os dias, alguns me responderam. Acionei o despertador do celular para agendar o fim da caminhada, tirei os óculos escuros porque ficaram embaçados com a máscara, organizei meus pensamentos enquanto me exercitava, agradeci por ter vivido a revolução sexual quando era jovem, e a pandemia agora que já sou idosa, e não ao contrário, o que seria um desastre. Mandei boas energias para meus parentes e amigos e, terminado meu tempo de caminhada, alonguei- me ao sol. Voltei para casa, tomei um banho de roupa, chapéu e tudo, limpei os óculos, escuros e de grau, coloquei tudo pra secar no cabide rente à janela, comi uma pera, mandei mensagens para alguns amigos, para saber deles, preparei o almoço, fiz a cama e varri o apartamento. 
Agora estou pronta para enfrentar, com resignação e criatividade, mais um dia igualzinho aos outros. 
E estou aqui, escrevendo para espantar o espanto, sem saber direito que domingo é hoje. 
Preciso raspar as pernas e maquiar- me, antes que comecem as vídeochamadas.

08/04/2020
Parto um filé de frango em pedaços, tempero e coloco no fogo. Dou uma mexida. O whatsapp apita e vou olhar o que é. Sou abduzida pelas mensagens e a panela queima. Olho para ela, triste.
Sinto muito pelo incômodo, mas a pandemia foi necessária para que eu voltasse a escrever, e aprendesse a cozinhar.
Assim que acordei, Nosso Senhor me disse:
- “Pegue  essa panela e vire-se”.
Humildemente, obedeci.
Como dizia meu professor de Psicologia, o saudoso Clauze, só se aprende a namorar namorando, só se aprende a pedalar pedalando, só se aprende a pedalar pedalando, só se aprende a amar mando. Aprendemos errando.
Amanhã será um novo dia. Uma panela de cada vez. Amém.


Proteja-se. O Estado não vai proteger você. Para cada trabalhador morto, filas de desempregados. O que faz a Economia parar não é o isolamento mas a pandemia. Espere um dia. O governo tá perdido, sempre volta atrás. Não tenha medo do mico. Se tiver que trabalhar, vá de máscara, luvas, óculos, chapéu, óculos burca. E se alguém se aproximar demais, espirre. 😉

Assim segue meu confinamento: unha do pé encravada, mala de fotos de papel em cima da cama, para escanear e desapegar, alho nascendo no vaso de plantas, saudade imensa no coração, apartamento meio bagunçado, mas limpo. Minha porção mulher dona de casa durou o primeiro mês. Comendo quentinhas. Comprei uma burca e fui vestida com ela ao dentista, na maior cara de pau. Às vezes acordo bem, às vezes acordo mal. Quando desperto sem ânimo, ligo a TV e ouço notícias. A indignação me dá vida. Não consigo fazer exercícios físicos. Tô tendo câimbra. Ontem finalmente aceitei brincar de esconde- esconde com Tati, minha gata. Uma forma de correr pelo apartamento pequeno. Vi filha, neta e genro pela janela do carro. Desci de burca, máscara, chapéu, óculos escuros, luvas e botas, fazendo graça pra não chorar. Odeio vassoura, ferro, rodo, aspirador e panela. Mas tento resolver essa dificuldade pra não ter que reencarnar só pra isso. ●



Fábio Faria tá feliz. Levou o pai velho e o filho de cinco anos para a posse dupla, agradeceu à esposa, todo mundo aglomerado numa canoa furada bem em cima do telhado, para onde vão, como na velha piada, os gatos já mortos. 
Kafka, G G Márquez, Isabel Allende, Castanheda, Borges, todos estupefatos com a realidade fantástica da política brasileira.
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Estranha normalidade. Danço conforme a dança da minha cabeça. E oscilo entre deixar a louça na pia ou secar as sacolas plásticas por cor e em ordem alfabética. Isso é horrível: estou me habituando. Talvez passe a pandemia e fiquem as manias. Vou sair às ruas abraçando as pessoas ou continuar num eterno confinamento. ●
Enquanto morremos, mortas ou confinadas vivas, sem poder conhecer o neto que nasceu, sem abraçar o amigo, o filho no aniversário, os pais solitários,  enquanto enterramos entes queridos em valas, enquanto o time governista é preso ou tem a casa invadida pela PF para buscas e apreensões, enquanto a Economia desaba e o número de funerais alça voo, empresas vão à falência, famílias passam fome, doentes gemem nas ambulâncias à espera de leitos, as crianças ficam sem escolas, os desvio de verbas para compra de respiradores é banalizado, o Queiróz continua desaparecido e a PM espanca os negros, o Executivo está aglomerado, gastando uma fortuna numa cerimônia de posse dupla.
Não perceberam que a canoa bolsonara está furada e o mar não tá pra peixe.
Mais um Bolsonaro. Toma posse já em cima do telhado, para onde vão todos. Amém